UT IN OMNIBUS GLORIFICETUR DEUS




O Tomás da História e o Tomás da Fé

Este artigo tem a intenção de ser provocativo! A começar pelo nome - "O Tomás da História e o Tomás da Fé"- que faz alusão à oposição teológica, de cunho protestante, entre o Jesus histórico e o Cristo da Fé.

Procurei, no supracitado artigo, trazer à baila uma reflexão que nos levasse a perceber que, oposição análoga, de alguma forma, parece ter se introduzido na história do tomismo mesmo. Todavia, contrapondo-nos a alguns comentadores, apresentamos a nossa contribuição assinalando que, assim como a separação cristológica é herética,  da mesma forma a oposição entre o Tomás glorificado pela Igreja e o Tomás da História é ilusória.



Fé e Teologia

É impossível, unicamente pela razão, tentar demonstrar os mistérios da fé. Já para os que crêem é mister buscar entender aquilo em que crêem, segundo a famosa sentença de Agostinho: “(...) desideravi intellectu videri quod credidi (desejei ver pela inteligência aquilo em que acreditei).” Ora, a teologia é precisamente esta tentativa de compreensão da fé. Nas Palavras de Pe. Chenu - agudo intérprete dos escolásticos- a teologia é a fé com status de ciência (in statu scientiae). A própria fé, vale dizer, é prenhe de teologia, pois, segundo o dito de Anselmo, ela procura compreender (Fides quaerens intellectum).

A Teologia nasce das perguntas da fé à razão. A fé provoca em nós o ardor, o ardor que é amor à verdade. Quem ama, busca, abraça e quer conhecer àquele a quem dedica o seu amor. Quando fala do amor à verdade - que acaba por se confundir com o próprio amor a Deus - Gilson aponta (...)



Amor e Predestinação em Deus Segundo Santo Tomás de Aquino

Deus cria todas as coisas por um ato de sua vontade. Ora, o primeiro ato da vontade é o amor. Ele precede e acompanha todos os outros. Amar é querer o bem. Logo, as coisas são boas porque Deus as amou. Mas, como existem coisas que são melhores que as outras, isto torna evidente que a umas Deus amou mais que a outras.

Com efeito, Deus criou as coisas segundo o seu intelecto, pelo que elas preexistem no intelecto divino. Ademais, Deus não fez as coisas boas somente quanto a suas substâncias, mas também quanto ao fim a qual as destinou.  Ora bem, o fim ao qual todas as coisas estão ordenadas, enquanto preexiste na inteligência divina, chamamos de providência.

Também o fim ao qual o homem está ordenado preexiste na inteligência divina. Contudo, a substância racional, tem dois fins: um natural, que pode alcançar por sua própria potência e outro sobrenatural, para o qual é transportado qual fecha pelo arqueiro, por Deus. Agora bem, a predestinação consiste, precisamente, na parte da providência divina, pela qual subsiste no intelecto divino, a ordenação de destinar os homens ao seu fim sobrenatural, a saber, à vida eterna.

Ora, é próprio da providência permitir certas deficiências nas coisas que lhe estão sujeitas, pois percebemos que muitas coisas não alcançam o fim ao qual estão destinadas. Sendo os homens, pela providência, ordenados para a vida eterna, acontece também que a providência permita que alguns não alcancem este fim. Aos homens que alcançam a vida eterna, damos o nome de eleitos e àqueles que são como que abandonados pela providência damos o nome de reprovados.  Como o ato criador de Deus, inclui um movimento de Sua vontade - pela qual as coisas são boas não somente quanto à sua substância, mas também quanto ao seu fim - deve-se dizer que, de igual maneira, os que são reprovado, o são por vontade de Deus, porque Deus permite que Eles não alcancem a vida eterna. 

Porque Deus elege alguns e a outros não? Qual é, pois, o critério? Como fica a liberdade humana e, por conseguinte, a responsabilidade pelos nossos atos, se uns já estão eleitos e outros reprovados?  Não haveria, pois, neste ato, uma injustiça da parte de Deus? Todas estas questões objetivamos, sucintamente, abordá-las neste artigo.

É mister ressaltar que não visamos abordar esta questão de forma dogmática, ao que ninguém deve ler este artigo esperando encontrar nele uma catequese de instrução religiosa. Nosso objetivo é bem mais modesto. Queremos apenas entender o que Santo Tomás pensou sobre esta clássica questão teológica e tentaremos envida-lo a partir dos oito artigos, da q. 23 da Suma Teológica, onde o Angélico trata sistematicamente deste problema.  Teria ele superado ou, ao menos, moderado certos exageros do pensamento agostiniano acerca da supradita questão? Antes, teria o Angélico sucumbido pela influência que sofreu de Agostinho e, por isso mesmo, o seu pensamento também não reflita a visão que hoje a teologia católica tem sobre a predestinação? Como ficaria a posição de Tomás com relação aos reformadores - notadamente Lutero - com a sua doutrina da graça irresistível e Calvino com o seu fatalismo?  De resto, este assunto, enquanto aborda questões relacionadas com a liberdade humana, não é totalmente destituído de valor para a filosofia. Não nos esqueçamos de que os racionalistas, Reuter e Harnack, estudaram este problema e chegaram à conclusão de que a teologia da graça de Agostinho inutiliza a Igreja enquanto instrumento de Deus que deve levar os homens à salvação. E há mais. Os racionalistas tendem a ver, na doutrina de Agostinho, um certo retrocesso ao paganismo, onde as religiões pregavam que o homem era como que joguetes nas mãos dos deuses (Agostinho, 1999: nota 1)! Daí a importância de sabermos se Santo Tomás corrigiu - com sua notável ortodoxia e moderação - ou se deu continuidade à teologia agostiniana neste ponto. Como não poderia ser diferente para um artigo, não poderemos tratar com riquezas de detalhes cada um destes pontos, esperamos que o leitor seja indulgente e saiba deduzir do texto e tirar as suas próprias conclusões.



A Encarnação do Senhor Segundo Santo Tomás de Aquino

Deus é o sumo bem. Ora, é próprio do bem comunicar-se.  É, pois, conveniente que o sumo bem também se comunique, de forma excelente. Com efeito, isto ocorreu quando o Verbo uniu a si a natureza humana. Donde o Angélico concluir que a Encarnação foi conveniente. Mas a Encarnação não foi somente conveniente, ela foi necessária.  Existem dois tipos de necessidade, uma é aquela sem a qual algo não pode existir, outra é aquela pela qual algo pode acontecer de maneira mais excelente. Quanto ao primeiro modo, a Encarnação não seria necessária, pois Deus poderia ter salvado o homem por outros meios. Quanto ao segundo modo a Encarnação foi necessária, pois foi a maneira mais excelente pela qual Deus poderia ter salvado o homem de seus pecados.

Desta questão, surge outra, concomitante a essa: Deus ter-se-ia encarnado se não houvesse pecado? Fiel às Escrituras e aos Concílios, Tomás aduz que Deus se encarnou por causa do pecado, haja vista que a encarnação ocorreu para realizar a salvação do gênero humano. Contudo, distinguindo na questão o atributo da onipotência divina, admite o Aquinate que Deus poderia ter se encarnado mesmo se o homem não tivesse pecado.

É interessante perceber como em questões teológicas o Angélico segue à risca o Símbolo da fé e as atas dos Concílios. É notório ainda como faz referência, a todo o momento, aos Padres da Igreja, sobretudo a Agostinho e Dionísio. Sua reverência às Sagradas Escrituras e às citações dos Papas (Por exemplo, de São Leão Magno) revela um espírito de obediência à fé e à Tradição Católica.  Destacaríamos ainda o modo como Frei Tomás distingue conveniência de necessidade e, como ao entrar nos liames do mistério de Deus, admite que não podemos conhecer a vontade de Deus senão pela por meio das Escrituras.




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