Amor e Predestinação em Deus Segundo Santo Tomás de Aquino
Deus cria todas as coisas por um ato de sua vontade. Ora, o primeiro ato da vontade é o amor. Ele precede e acompanha todos os outros. Amar é querer o bem. Logo, as coisas são boas porque Deus as amou. Mas, como existem coisas que são melhores que as outras, isto torna evidente que a umas Deus amou mais que a outras.
Com efeito, Deus criou as coisas segundo o seu intelecto, pelo que elas preexistem no intelecto divino. Ademais, Deus não fez as coisas boas somente quanto a suas substâncias, mas também quanto ao fim a qual as destinou. Ora bem, o fim ao qual todas as coisas estão ordenadas, enquanto preexiste na inteligência divina, chamamos de providência.
Também o fim ao qual o homem está ordenado preexiste na inteligência divina. Contudo, a substância racional, tem dois fins: um natural, que pode alcançar por sua própria potência e outro sobrenatural, para o qual é transportado qual fecha pelo arqueiro, por Deus. Agora bem, a predestinação consiste, precisamente, na parte da providência divina, pela qual subsiste no intelecto divino, a ordenação de destinar os homens ao seu fim sobrenatural, a saber, à vida eterna.
Ora, é próprio da providência permitir certas deficiências nas coisas que lhe estão sujeitas, pois percebemos que muitas coisas não alcançam o fim ao qual estão destinadas. Sendo os homens, pela providência, ordenados para a vida eterna, acontece também que a providência permita que alguns não alcancem este fim. Aos homens que alcançam a vida eterna, damos o nome de eleitos e àqueles que são como que abandonados pela providência damos o nome de reprovados. Como o ato criador de Deus, inclui um movimento de Sua vontade - pela qual as coisas são boas não somente quanto à sua substância, mas também quanto ao seu fim - deve-se dizer que, de igual maneira, os que são reprovado, o são por vontade de Deus, porque Deus permite que Eles não alcancem a vida eterna.
Porque Deus elege alguns e a outros não? Qual é, pois, o critério? Como fica a liberdade humana e, por conseguinte, a responsabilidade pelos nossos atos, se uns já estão eleitos e outros reprovados? Não haveria, pois, neste ato, uma injustiça da parte de Deus? Todas estas questões objetivamos, sucintamente, abordá-las neste artigo.
É mister ressaltar que não visamos abordar esta questão de forma dogmática, ao que ninguém deve ler este artigo esperando encontrar nele uma catequese de instrução religiosa. Nosso objetivo é bem mais modesto. Queremos apenas entender o que Santo Tomás pensou sobre esta clássica questão teológica e tentaremos envida-lo a partir dos oito artigos, da q. 23 da Suma Teológica, onde o Angélico trata sistematicamente deste problema. Teria ele superado ou, ao menos, moderado certos exageros do pensamento agostiniano acerca da supradita questão? Antes, teria o Angélico sucumbido pela influência que sofreu de Agostinho e, por isso mesmo, o seu pensamento também não reflita a visão que hoje a teologia católica tem sobre a predestinação? Como ficaria a posição de Tomás com relação aos reformadores - notadamente Lutero - com a sua doutrina da graça irresistível e Calvino com o seu fatalismo? De resto, este assunto, enquanto aborda questões relacionadas com a liberdade humana, não é totalmente destituído de valor para a filosofia. Não nos esqueçamos de que os racionalistas, Reuter e Harnack, estudaram este problema e chegaram à conclusão de que a teologia da graça de Agostinho inutiliza a Igreja enquanto instrumento de Deus que deve levar os homens à salvação. E há mais. Os racionalistas tendem a ver, na doutrina de Agostinho, um certo retrocesso ao paganismo, onde as religiões pregavam que o homem era como que joguetes nas mãos dos deuses (Agostinho, 1999: nota 1)! Daí a importância de sabermos se Santo Tomás corrigiu - com sua notável ortodoxia e moderação - ou se deu continuidade à teologia agostiniana neste ponto. Como não poderia ser diferente para um artigo, não poderemos tratar com riquezas de detalhes cada um destes pontos, esperamos que o leitor seja indulgente e saiba deduzir do texto e tirar as suas próprias conclusões.
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