UT IN OMNIBUS GLORIFICETUR DEUS




Justino de Roma: Cristãos Antes de Cristo

Justino - filósofo e mártir – nasceu, no primeiro quartel do século II, em Siquém, na região da Samaria. Apaixonado pela filosofia, converteu-se ao cristianismo, provavelmente em Éfeso, ao desiludir-se com o platonismo. Dos padres apologistas, é o que mais interessa, à filosofia. O seu mais famoso discípulo, Taciano, o chamou de mestre “admirabilíssimo”. Na verdade, nunca depunha o manto filosófico, mesmo quando pregava a palavra de Deus, conforme nos testemunha Eusébio (Eusébio, História Eclesiástica 4, 11). Fundou escola em Roma, onde também derramou o seu sangue por Cristo, entre os anos 163 e 167.

Sua doutrina sobre o Logos, tornou-se clássica, na teologia cristã. Muitos vêem nela, o fundamento - do que se pode chamar - de um “humanismo cristão”. De fato, para designar a participação que os pagãos tiveram, no Logos, ele retoma um termo, de origem estóica: “germe” ou “semente”. Com efeito, os pagãos tiveram um “germe” - uma “semente” - do Logos que é Cristo!

Gilson chama a atenção, à importância,  para a História da Filosofia, do “Diálogo com Trifão”. Será, neste diálogo que, pela primeira vez, o cristianismo reclamará para si, o patrimônio espiritual advindo do paganismo.



Taciano: A Alma: Psykhé e Pneuma

Taciano nasceu, por volta do ano 120, em terras assírias. Era de família pagã. Conheceu Justino, em Roma, freqüentou a sua escola, e se tornou um dos seus mais brilhantes discípulos.

Taciano teve um longo itinerário cultural e religioso, mas se converterá ao cristianismo, pelos mesmos motivos do seu mestre Justino. Após a morte deste, Taciano começou a se afastar do cristianismo; parece ter aderido à gnose de Valentim. Mais tarde, empreendeu esforços, para restabelecer a seita herética dos “encratitas”, cuja principal característica é o rigorismo moral absoluto. Até mesmo o vinho da Eucaristia, Taciano, substituía, por água! Alimentos como o vinho e a  carne, eram proibidos, sob pena de pecado, pela seita. Ademais, também proscreviam, o matrimônio (Gilson, 2001: 9).

A data de composição, de sua obra mais significativa, para a filosofia - Discurso Contra os Gregos, é incerta, podendo ser datada, entre 166 e 172. Talvez a principal característica do seu pensamento, seja a hostilidade aos filósofos e a cultura pagã. Enquanto Justino, se valia do que os gregos tinham dito, em conformidade com o cristianismo, para torná-los “cristãos antes de Cristo”, Taciano, ao contrário, usava do mesmo argumento, para apontar a falta de originalidade dos filósofos pagãos.  Por conseguinte, tudo o que haviam dito de certo, eles tomaram dos livros de Moisés. E tudo o que disseram de errado foi porque, não souberam interpretar, os ensinamentos do Antigo Testamento.



Atenágoras de Atenas: O Homem é Corpo e Alma

De Atenágoras, sabemos apenas, que era filósofo e nascido em Atenas. De espírito pacífico, não tinha o mesmo gênio agressivo de Taciano, embora fosse cristão como ele (J. Lebreton e J Zeiller).  Sua obra, Petição em Favor dos Cristãos, fora dirigida, ao imperador estóico, Marco Aurélio. Não se vê, em Atenágoras, o desejo de fazer remontar a Moisés as idéias filosóficas que eram concordes com o cristianismo. Para ele, bastava acentuar que, se Platão era monoteísta, não se poderia, por conseguinte, condenar os cristãos por sê-lo. A supracitada obra de Atenágoras, como observa Gilson, nos reserva uma grande surpresa: nela se encontra, a primeira prova, da unicidade do Deus cristão (Gilson, 2001: 18).

Outra obra de Atenágoras, é o tratado Sobre a Ressurreição dos Mortos. Esta obra - cuja autenticidade, tem sido contestada, por alguns estudiosos (R.M.Grant e Schoedel) – é particularmente significativa, para a história das relações entre fé e razão. Nela o nosso filósofo distingue, com nitidez, o possível do necessário. Sem embargo, se põe a provar, que a ressurreição da carne não é impossível; só depois, se propõe demonstrar, que ela é necessária.

Igualmente, sabe distinguir o argumento racional, do apelo à fé. Em nenhum momento da obra, reservada à razão, vemo-lo apelar para a ressurreição de Cristo.  Distingui ainda, um discurso que visa apenas defender a verdade, daquele que quer expô-la. Foi Atenágoras, de acordo com Gilson, quem primeiro percebeu, na doutrina platônica (Para a qual o homem é a sua alma), as dificuldades que ela levantava ao dogma da ressurreição da carne (Gilson, 2001: 21). Tais dificuldades, fizeram-no aderir, à concepção aristotélica de homem: o homem é, naturalmente constituído, de alma e corpo (Ibidem).

Segundo B. Altaner e A. Stuiber, Atenágoras, supera Justino, em linguagem, ritmo e estilo (B. Altaner, 2004: 84). Os mesmos estudiosos, salientam ainda, o notável progresso - filosófico e teológico - que se desponta em Atenágoras, em relação aos seus predecessores (Ibidem).



Teófilo de Antioquia: “Mostra-me teu Homem, e eu te Mostrarei o meu Deus”

É o último grande apologista, do século II. Segundo Eusébio, Teófilo foi o sexto Bispo de Antioquia, depois dos apóstolos. O seu lugar, na História da Teologia, está garantido. Foi o primeiro escritor a usar o termo, “Trinitas”, para designar a divindade (B. Altaner e A. Stuiber, 2004: 86). De família pagã, e educação grega, Teófilo se convertera ao cristianismo, já adulto, através da leitura dos Profetas. Com efeito, ele dirige as suas três principais obras, a um pretenso amigo pagão, que se julga incapaz de compreender o cristianismo. Alguns estudiosos, no entanto, observam a dificuldade de encontrar, um endereçamento particular nesta obra, visto toda ela parecer tender para o domínio público (A. Puceh, 207 a 227: 1912). Gilson, em A Filosofia na Idade Média, é pouco indulgente, quanto à originalidade filosófica de São Teófilo (Gilson, 2001:22).




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