Santo Agostinho: “Intellige ut Credas, Crede ut Intelligas”
Toda a filosofia cristã parece ter sido construída sob a fórmula, encontrada no Profeta Isaías, “Nisi credideritis non intelelligetis” (Se não credes, não compreendereis). Tirada da tradução dos Setenta, hoje sabemos que ela está incorreta. De qualquer forma, o grande Santo Agostinho não se cansa de recitá-la em suas obras.
Com efeito, parece ter sido, precisamente com Agostinho, que nasce um aparente paradoxo. Segundo Gilson a fórmula que, com maior precisão, definiria a posição de Agostinho, frente ao binômio razão e fé, está no seu sermão 43, quando diz: “Intellige ut credas, crede ut intelligas” (Compreende para crer, crê para compreender). Ora, deve-se afinal crer para compreender ou, antes, deve-se compreender para crer?
O nosso pequeno texto tentará apresentar o movimento do pensamento agostiniano no que toca à tentativa de elucidar este aparente paradoxo. Veremos, inclusive, que tal paradoxo já está presente, de alguma forma, na própria vida do grande Doutor Africano.
João Escoto Erígena: “Nemo Intrat in Caelum Nisi per Philosophiam”
João Escoto Erígena nasceu entre o ano 800 e 815 da nossa era. Irlandês, deixou seu país muito cedo e exerceu importantes funções na corte de Carlos, o Calvo. Envolveu-se, a pedido do Arcebispo de Reims, numa querela com Gottschalk a respeito da predestinação. Contudo, sua obra (De Praedestinatione), que nascera para combater a heresia a respeito da supracitada questão, foi considerada, ela própria, herética pelo sínodo de Valenciennes em 855. Parece ter conhecido o grego e depois da morte de Carlos, o Calvo, perdemos definitivamente o seu paradeiro. Para a filosofia medieval a sua maior contribuição foi a de ter traduzido, do grego para o latim, o Corpus Areopagiticum.
No nosso texto abordaremos a questão da concordância entre razão e fé, vista sob a ótica do nosso filósofo.
Segundo Etienne Gilson a trama que revela todo o sentido da doutrina de Erígena se esconde, justamente, na sua concepção das relações entre razão e fé.
Anselmo é, por muitos, chamado Pai da Escolástica. Talvez isto se deva, sobretudo, pela sua doutrina a respeito das relações entre fé e razão. Nele, como já em Agostinho e Erígena, o pensamento cristão parece encontrar uma máxima que, doravante, o norteará séculos afora: “Neque enim quaero intelligere ut credam, sed credo ut intelligam” (Não se compreende para crer, mas, ao contrário, crê-se para compreender). Efetivamente, Anselmo se encontra entre dialéticos e teólogos, sendo que ambos defendem uma posição extremada. Do lado dos dialéticos pretende-se compreender tudo pela razão, como se a fé fosse dispensável. Por parte dos teólogos, a especulação racional parece não encontrar espaço dentro da Teologia. O Arcebispo de Cantuária revela todo seu gênio conciliador ao propor que a “fé procura compreender” (Fides quaerens intellectum). Se, por um lado, os dialéticos devem ceder à primazia à fé, por outro, os teólogos devem admitir que, não procurar investigar o que se crê, é negligência.
De fato, é justamente nesta solução, aparentemente inquestionável, que surgem os mais árduos problemas. Aparece-nos como se fosse possível compreender tudo aquilo em que se crê! Desse modo, embora não tendo a pretensão de esgotar o mistério, Anselmo tenta propor “razões necessárias”, pelas quais julga poder - unicamente pela razão - impor aos espíritos, o dogma da Trindade e mesmo o da Encarnação. Tal empreendimento, Tomás de Aquino irá rechaçar como absurdo.
Em nosso modesto texto procuraremos colocar, tanto a contribuição de Anselmo para aquele momento, como, ao mesmo tempo, o grande problema que ele – talvez involuntariamente – deixa para o pensamento cristão posterior. Embora o problema já estivesse presente em Erígena e Agostinho, foi com Anselmo que ele parece ter ganhado forma “canônica”!
Pedro Damião, talvez seja o mais famoso dos antidialéticos medievais. Viveu de 1007 a 1072. Embora elevado às honras dos altares, sua atitude, similar a de Tertuliano, não foi canonizada pela Igreja. Partindo da premissa cristã, de que nossa natureza foi enfraquecida pelo pecado e que o próprio mundo está sujeito à corrupção, Damião foi levado, sem dúvida, a conclusões extremistas. Chega a dizer que o corpo é massa de podridão e parece condenar, unilateralmente, a natureza. Tem uma aversão, ou melhor, ódio pela filosofia.
Temas como fuga do mundo e desprezo do corpo lhe são familiares e encontram-se, de uma maneira ou de outra, em todos os seus escritos. Talvez possa proceder, da avaliação do pensamento de Pedro Damião, as opiniões, pouco amistosas, por parte de alguns renascentistas e modernos, a respeito da Idade Média... Cumpre dizer que, não obstante isso, São Pedro Damião foi e continua sendo um importante quadro do pensamento medievo, muito embora a sua atitude não possa ser tomada como a única imagem da época. Parece ter provindo dele a expressão: “Philosophia Ancilla Theologie”! É, por isso, inclusive, que se podemos empregar a mesma expressão à obra de um Santo Tomás, só o podemos com um sentido inteiramente diferente.
Nosso pequeno texto quer ilustrar a faceta aintidalética do pensamento medieval por meio de um dos seus mais ilustres representantes. Iremos tocar na figura de Pedro e dos antidialéticos através de suas concepções a respeito das relações entre fé e razão. Se se entende bem, a atitude dos antidialéticos, poder-se-á compreender melhor a reação de um Anselmo frente a esta questão.
Filho de cavaleiro, Abelardo nasceu, em Bourg du Palais, perto de Nantes, em 1079. O pai, que era erudito, cuidou para que Abelardo fosse devidamente instruído nas ciências da época. Apaixonou-se Abelardo tanto pelos estudos que renunciou a carreira militar do pai e o direito à primogenitura. O próprio Abelardo admite, no entanto, que nunca deixou de ser soldado, pois adorava os torneios de lógica! Educado na escola de Roscelino, famoso nominalista, Pedro Abelardo deixou-se influenciar pelo seu mestre. Em Paris tornou-se discípulo de Guilherme de Champeaux, o mestre dos mestres da dialética parisiense da época. A simpatia inicial pelo mestre transformou-se, repentinamente, em uma terrível antipatia; sua querela com Guilherme tornar-se-ia famosa para toda história da filosofia. Dotado de um intelecto brilhante, Abelardo se destacava entre os demais colegas na arte dialética, o que lhe mereceu invejas por parte destes e perseguições. Abelardo chega a dizer que as suas “calamidades” começaram com o seu sucesso na dialética. Conta-se que venceu o próprio Guilherme em vários debates escolares.
Com apoio de alguns amigos, fundou uma escola em Melun. Submergido pelos intensos trabalhos, caiu doente e passou um longo período fora das atividades escolares. Retornou a Paris e a seus estudos com Guilherme. Finalmente, houve um rompimento definitivo. De fato, Guilherme permanecera, embora já tivesse recuado muitas vezes, por causa das objeções de seu antigo aluno, na mesma doutrina. Abelardo chegou a ocupar a cadeira que era do seu antigo mestre; mas este, por suas maquinações, conseguiu afastá-lo de lá colocando, em seu lugar, um discípulo seu.
Guilherme, no entanto, já estava velho e cansado, sofria críticas até dos de sua ordem (Os Cônegos Regulares) e achou por bem afastar-se de Paris. Abelardo, que havia refundado a sua Escola em Melun, sabendo da retirada de Guilherme, retornou a Paris e voltou a travar lutas com o seu novo rival (discípulo de Guilherme). Guilherme, por sua vez, também retornou para defender o seu discípulo das investidas de Abelardo. Entretanto, o seu retorno foi nada mais do que inútil, Abelardo saíra vitorioso novamente. Guilherme e os seus, perderam, por sua vez, todos os seus alunos para Abelardo e este se tornou o grande mestre de dialética em Paris.
Em Teologia Abelardo foi aluno do grande teólogo da época, Anselmo de Laon. Contudo, o seu mestre em teologia, não era dialético, e isto fez com que Abelardo não lhe poupasse críticas ulteriores. Fazer glosas, alinhar sentenças da Escritura e dos Santos Padres, tudo isso não parecia a Abelardo senão um método bastante rude de fazer teologia. Abelardo não entendia, fosse suficiente, mesmo em teologia, o simples agrupamento de textos patrísticos acerca de um determinado artigo de fé. O Mestre Palatino queria introduzir a dialética na sacra-ciência e isto desagradou aos seus colegas mais conservadores. Anselmo, entretanto, percebera o talento de Abelardo e as suas inovações, pelo que lhe proibiu de dar preleções aos seus alunos sob a alegação de conduzi-los a erros. Abelardo retirou-se de Laon, voltou a Paris onde se tornou – mesmo sendo leigo – professor de teologia bastante afamado.
Seu sucesso foi-lhe subtraído pela soberba e luxúria que o dominaram. Envolveu-se com Heloísa. O tio desta, por meio de outros, o mandara castrar! Humilhado, internou-se na Abadia de S. Denis e a sua amada no convento de Argenteuil. Daí por diante dedicou-se à Teologia, sem nunca esquecer a dialética. Escreveu livros e foi ainda vítima de invejas. Precisou sair da Abadia, os seus opositores haviam conseguido a condenação de um livro seu em Soissons. Era o ano de 1121. Retirou-se para Naisoncelle, mandou construir uma modesta capela. Voltou a ser assediado por seus alunos, que foram atrás do mestre e construíram, juntos, uma Igreja dedicada à Santíssima Trindade. Novamente os seus algozes não o deixaram em paz, atribulado refugiou-se uma vez mais, aceitando o cargo de abade de S. Gildas na Bretanha. Também ali não encontrou sossego, fora mesmo até ameaçado de morte pelos seus próprios súditos. Muito depressivo retornou a Paris, às suas aulas de lógica, e teve que enfrentar o mais temível de todos os seus adversários: Bernardo de Claraval. Condenado pelo Concílio de Sens e, como a própria Santa Sé rejeitasse as suas doutrinas, decidiu não mais se defender. Exilou-se na Abadia de Cluny e passou os seus últimos anos no Priorado de S. Marcelo, onde se entregou às ocupações da vida monástica. Faleceu em 1142.
A obra de Abelardo é inseparável da sua vida, por isso optamos por uma biografia mais demorada. Cientes, por fim, de toda a perseguição que este pensador sofreu, poderemos entender melhor a sua obra, as suas convicções, a sua filosofia. Carente de compreensão em vida, parece-nos plausível que tenha querido propor um humanismo cristão em sua doutrina. Se entendermos o seu amor pela dialética, também conseguiremos adentrar nos “porquês” de sua teologia e na fronteiriça relação que estabeleceu entre fé e razão, cristianismo e paganismo! Ao mesmo tempo, este pensador soube dar continuidade a melhor tradição cristã, de Justino a Agostinho. Vejamos algumas das características do pensamento deste importante autor medieval.