Clemente de Alexandria: Deus Está Acima da Própria Unidade
Clemente tem por certo que a existência de Deus é uma verdade universalmente conhecida. Para explicar este conhecimento universal, Clemente se vale do conceito de “antecipação”, que procede de Epicuro (P. Boehner, 2000: 39).
A natureza divina permanece incognoscível aos homens. São Paulo tinha razão ao identificar o Deus cristão com o “Deus desconhecido” (Ibidem: 44). Podemos, no entanto, ter um conhecimento negativo de Deus, por via analítica. De fato, abstraindo das coisas, tudo o que é próprio das criaturas, podemos chegar a um conceito puramente espiritual, que nos dará alguma noção, ainda que imperfeita, do Todo-Poderoso. É, pois, no conhecimento de Deus que o gnóstico - que, na concepção de Clemente, é o cristão perfeito - encontra toda a sua recompensa e deleite.
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Orígenes: O Deus Único e Finito
Orígenes, assim como Clemente, julga desnecessário provar a existência de Deus, visto que todos a reconhecem. Ele se ocupa, antes, em combater o politeísmo, tentando demonstrar a unicidade do Deus cristão (P. Boehner, 2000: 56). Orígenes procura, através de agudas observações, provar a imaterialidade de Deus, a partir da imaterialidade do espírito humano (Ibidem: 58). Diante de um mundo sensível que nos cerca é, pois, na espiritualidade de Deus, que se fundamenta a transcendência do espírito humano, sobre todo o resto (Ibidem). Apesar da essência divina, em si mesma, nos ser incognoscível, podemos ter dela algum conhecimento, através das suas criaturas. Existe, pois, uma teologia negativa que consiste em eliminar, todo elemento corporal, da natureza divina. Além dessa teologia negativa, existe outra, superlativa, que ressalta a transcendência de Deus dando-Lhe conceitos puramente espirituais. (Ibidem: 59). Orígenes revela as raízes helenísticas do seu pensamento, sobretudo, na maneira como entende a onipotência divina. Esta, segundo ele, é limitada, pois Deus nada pode fazer: contra si mesmo, contra a razão ou contra as naturezas que Ele próprio criou. Tal concepção procede, claramente, da noção negativa que os gregos tinham de infinitude e do ilimitado. (Ibidem: 60).
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Gregório de Nazianzo: Deus é o ser Infinito
São Gregório Nazianzeno nasceu entre os anos de 329 e 330, em Nazianzo. Seu pai, convertido por sua piedosa mãe, acabou por se tornar Bispo de Nazianzo. Educado pela mãe, Gregório estudou retórica em Cesaréia e só recebeu o Batismo - conforme o costume da época - em idade adulta (30 anos). Amigo de São Basílio até a morte, o jovem Gregório também estudou em Alexandria onde, instruído por Dídimo, se familiarizou com o pensamento origineano. Concluiu a sua formação em Atenas e, ao lado de Basílio, aprofundou os seus estudos dos clássicos da filosofia. Isolou-se por um tempo às margens do rio Iris no Ponto. Voltando a Nazianzo, fora ordenado sacerdote, muito a contragosto, pelo seu próprio pai. Para se justificar escreveu um tratado sobre a dignidade do sacerdócio, voltou a Nazianzo, onde ajudou seu pai na administração da diocese. Em 372 foi sagrado Bispo de Sasima por Basílio. Entretanto, Sasima acabou não exercendo o episcopado. Com a morte do pai, assumiu as funções de Bispo em Nazianzo e, para restabelecer a fé ortodoxa, aceitou administrar a sede episcopal de Constantinopla a qual, no entanto, renunciou para evitar rixas. Voltou então a Nazianzo onde continuou ajudando na Diocese. Optou pela solidão, na qual viveu os últimos anos de sua vida, dedicando-se à ascese e ao trabalho literário. Morreu em 390.
É, sobretudo, a teodicéia de Gregório que nos interessa mais de perto aqui. Sua prova da existência de Deus, pela via do governo do mundo, foi retomada, quase literalmente, por João Damasceno e depois, reelaborada, tornou-se a chave da quinta via (para se provar a mesma existência de Deus), na teologia natural tomista. Na controvérsia com os eunomianos, que afirmavam que a essência divina, por ser ingênita, era inteiramente inteligível, Gregório afirmou a total impossibilidade de conhecermos o que Deus é em si mesmo. Alguns estudiosos observam que, já em Gregório, começa-se a delinear o conceito de analogia (P. Boehner, 2000: 84), que será de capital importância para a teodicéia cristã posterior.
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Agostinho: Deus é o Ser Porque Imutável
Nenhum pensador do Ocidente cristão conseguiu superar Agostinho, já em importância, já em influência. A bem da verdade, como ressalta Lima Vaz, somente a obra de Platão obteve tanto sucesso no mundo antigo como a de Agostinho. A atualidade da obra destes dois pensadores é atestada, pois, pela imensa bibliografia que não pára de crescer a cada dia (Lima Vaz, 2002: 179). Agostinho formou muitos discípulos ao longo dos séculos, muitos dos quais se mostraram ser gênios verdadeiramente originais, e não poderia ser diferente, já que sua autoridade, reinou praticamente sem par, por quase um milênio (P. Boehner, 2000: 203). Sua influência foi tanta que, mesmo quando sua doutrina era deturpada - como de fato o foi a sua teologia da história - era capaz ainda de mudar a face da terra. Sem Agostinho nada poderia ligar o nosso mundo ao mundo antigo, ao mundo do cristianismo primitivo, aos tempos evangélicos (Ibidem: 204).
As criaturas são degraus para Deus. O conhecimento delas deve, necessariamente, remeter-nos a Deus. Com efeito, se seguirmos a intuição do Doutor de Hipona, a natureza humana, por ser imagem e semelhança de Deus, pode nos falar muito sobre Deus. De fato, no tratado da Trindade, Agostinho descobriu várias imagens da Trindade, a partir de uma atenta observação do espírito humano. Contudo, é interessante notar que a essência divina, em si mesma, nos permanece desconhecida. Deus é, pois, incognoscível e, por conseguinte, inefável. De sua natureza só conhecemos, propriamente, o que ela não é.
Um nome, dos muitos dados a Deus, que ocupa lugar privilegiado na filosofia agostiniana, é o de “Aquele que é”. De fato, Deus, por ser imutável, é o próprio ser. A imutabilidade do ser é, deveras, a chave, para o desvelamento do pensamento agostiniano acerca de Deus. As criaturas recebem dEle o seu ser e são mantidas no ser enquanto participam do ser dAquele que é. Em si mesma nenhuma coisa, que não seja Deus, é. Aliás, é por isso que a essência divina é incognoscível. Como podem as criaturas, que não são em si mesmas, porque mutáveis - e dentre as quais se inclui o homem - chegar, apenas por suas próprias forças, a conhecer Aquele que é? Por outro lado, e paradoxalmente, reside aqui também o fato de a existência de Deus ser evidente. De fato, dEle podemos ter algum conhecimento a partir das suas criaturas. Com efeito, como as criaturas, que não existem por si mesmas, por serem mutáveis, podem ter passado do não-ser para o ser?
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